
Quantidade
de luz solar na Terra é cada vez menor, dizem cientistas
DAVID SINGTON
da BBC Brasil
Cientistas
acreditam que a Terra está recebendo uma quantidade cada vez
menor de energia solar --e que, paradoxicalmente, isto pode ser resultado
do aquecimento global.
Os
pesquisadores chegaram a esta conclusão após terem analisado
medições da luz solar colhidas nos últimos 50 anos.Eles
suspeitam que a redução do nível de luz solar se
deva à poluição atmosférica.
Partículas
sólidas lançadas ao ar por atividades poluentes --como
cinzas e fuligem-- refletem a luz de volta para o espaço, impedindo
com que ela chegue à terra.Além
disso, a poluição também modifica as propriedades
óticas das nuvens, aumentando a sua capacidade de refletir os
raios de sol de volta para o espaço.
Repercussão
O
primeiro cientista a observar o fenômeno da redução
do nível de luz solar foi o britânico Gerry Stanhill, que
comparou dados obtidos em Israel na década de 1950 com medições
mais recentes e encontrou uma queda de 22%.
A
partir daí, ele procurou dados semelhantes sobre outros países
e observou que a redução também se observava em
vários outros lugares.Em
partes da antiga União Soviética, ela chega a 30%, no
Reino Unido, a 16%, nos Estados Unidos, a 10%.
Embora
a variação seja grande de lugar a lugar, a estimativa
é que o declínio tenha sido de 1% a 2% por década
em um período de 50 anos.
Seu
trabalho, publicado em 2001, não teve grande repercussão,
mas os resultados foram reforçados agora por uma equipe de pesquisadores
australianos que utilizou métodos totalmente diferentes para
avaliar a quantidade de luz solar que chega à Terra.
O
fenômeno está sendo chamado de "turvação
global".
.........................................................Subestimação
Os
cientistas agora temem que isto esteja fazendo com que menos luz solar
chegue aos oceanos, o que pode afetar o padrão da ocorrência
de chuvas no planeta.
Há
quem sugira que a turvação global esteja por trás
das secas que causaram centenas de milhares de mortes na África
sub-saariana nos anos 1970 e 1980.
Alguns
dados preocupantes insinuam que algo parecido pode estar acontecendo
agora na Ásia, onde vive metade da população mundial.
Uma
outra conclusão suscitada pela descoberta é que os cientistas
podem ter subestimado o poder do efeito estufa.
Muitos
especialistas acham surpreendente que a energia extra acumulada na atmosfera
terrestre pelas emissões extras de dióxido de carbono
só tenha causado um aumento de temperatura da ordem de 0,6 grau
centígrado.
Acredita-se
que, na Era Glacial, quando houve um aumento parecido de CO2, a temperatura
tenha subido 6 graus.Mas
agora está ficando aparente que o aumento da temperatura causada
pelo CO2 em excesso pode ter sido amenizado pelo esfriamento causado
pela redução do nível de radiação
solar que chega à Terra.
Isto
indica que o clima pode ser muito mais sensível ao efeito estufa
do que se pensava anteriormente.

Má
notícia
Se
este for o caso, aí então se trata de uma má notícia,
segundo o climatologista Peter Cox.
Do
jeito que as coisas estão se encaminhando, estima-se que os níveis
de dióxido de carbono vão continuar subindo de forma acentuada
nas próximas décadas, enquanto há sinais encorajadores
de que a emissão de partículas sólidas na atmosfera
está sendo colocada sob controle.
"A
implicação é que vamos, ao mesmo tempo, reduzir
o poluente que causa o esfriamento e aumentar o que causa o aquecimento,
e isso será um problema", diz Cox.
Mesmo
as mais pessimistas projeções sobre o futuro do clima
global teriam então que ser revisadas para cima, o que significaria
que um aumento de 10 graus centígrados por volta de 2100 não
seria de todo inimaginável.
Fonte:
Folha de São Paulo, em 15 de janeiro de 2005
Turvação global, citricultura, ecologia
prática, oikos, salvem nosso planeta
