Calda Sulfocálcica - esclarecimentos práticos na cultura dos citros:

Embora a calda sulfocálcica já tenha sua utilização na Agricultura há mais de um século, depois da década de 60 ela começou a ser esquecida nos pomares cítricos do Estado de São Paulo, graças às estratégias de marketing e vendas das multinacionais dos agroquímicos.

Com a crise do setor citrícola na década de 90, ela voltou a ser utilizada inicialmente de forma artesanal por alguns citricultores, os quais tiveram sucesso no controle de pragas e doenças, e com uma redução substancial de custos. Animados com os resultados obtidos, esses citricultores começaram a difundir suas experiências.

Hoje, com a difusão dos resultados da aplicação da calda sulfocálcica de boca em boca, muitos citricultores já fazem uso convencional das caldas sulfocálcica e bordalesa para o controle de pragas e doenças. Porém, como foi um produto esquecido por quase 4 décadas, muitas dúvidas e questões nos surgem agora. Para realizar este trabalho, recorri à leitura de trabalhos recentes de pesquisadores, observações próprias no campo e entrevistas com citricultores que vêm utilizando a calda sulfocálcica com excelentes resultados de controle e baixos custos a mais de cinco anos.


Eng. Agr. Carlos Alberto Cristan
e-mail: carloscristan@hotmail.com.br
Limeira, SP - 1999



Perguntas, respostas e dicas:

1) O que é a calda sulfocálcica?
Resposta: é uma mistura de enxofre ventilado em água quente com cal virgem, cuja reação produzirá sulfonatos de cálcio em várias formas, como os penta e os tetra sulfonatos que possibilitarão o controle direto e imediato das pragas, e o controle indireto de doenças através da nutrição das plantas, processo este chamado de trofobiose, que foi exaustivamente estudado pelo pesquisador francês Francis Chaboussou.


2) Qual o efeito da calda sulfocálcica sobre a planta cítrica?

Resposta: a calda sulfocálcica além de controlar pragas e doenças, fornece também o enxofre e o cálcio na nutrição das plantas cítricas. Em relação ao uso prolongado da calda em pomares cítricos, por enquanto nenhum aspecto negativo foi notado nos pomares que a vem recebendo quase que exclusivamente ela em pulverizações visando o controle de ácaros a cinco anos.

Observação: - jamais devemos esquecer que as plantas para se tornarem altamente produtivas e saudáveis, necessitam de nutrição adequada e balanceada em relação aos macro e microelementos.
Muitos citricultores nos recentes tempos de crise, não estão adubando os pomares e nem aplicando microelementos, com isto os pomares vêm decaindo, e os representantes das multinacionais afirmam que a decadência desses pomares é devida à aplicação da calda sulfocálcica.


3) Quais as pragas e doenças controladas pela calda sulfocálcica?
Resposta: de forma direta são controlados os ácaros da leprose, ferrugem, branco, mexicano e purpúreo, além de cochonilhas. E de forma indireta, agindo como repelente para a larva minadora e o bicho-furão. Além da redução da intensidade da ocorrência de doenças como a rubelose, antracnose e gomose pelo efeito trofobiótico.


4) Como controlar os ácaros?
Resposta: para determinar o momento adequado de pulverização, deve seguir a metodologia do MIP (manejo integrado de pragas) ou do MEP (manejo ecológico de pragas), e quando a amostragem indicar que a população de ácaros próximas ao nível de controle, realizar a pulverização. Para o controle de ácaros da ferrugem, purpúreos e brancos a dosagem indicada é de 40 a 50 litros de calda sulfocálcica para 2.000 litros de água. Para ácaros da leprose a dosagem recomendada é de 80 litros de calda sulfocálcica para 2.000 litros de água.

Observações:
- no caso de altas infestações de ácaros da leprose, é conveniente, se o produtor não estiver num programa de certificação com selos verdes, a utilização de de um acaricida convencional específico para zerar a população destes ácaros. Ao realizar as pulverizações visando os ácaros da ferrugem, as baixas infestações de ácaros da leprose que ressurgirem poderão já ser controladas neste momento;
- se houver alguma seca ao ponto de deixar as plantas bastante estressadas (murchas), não é aconselhável realizar a pulverização de calda sulfocálcica visando o controle de ácaros da leprose, pois nestas condições a reação trofobiótica poderá ser desfavorável, e o controle dos ácaros poderá não ocorrer. Neste caso, ou se parte para um controle convencional, ou se aguarda a planta se recuperar do estresse.


5) Como realizar a pulverização?
Resposta: para haver um bom controle dos ácaros, é fundamental que haja uma boa cobertura com o produto, visto que a ação imediata da calda sulfocálcica é por contato. O volume de calda por planta varia conforme a idade, a altura e o enfolhamento das plantas. Geralmente o volume de calda em pomares em produção varia de 10 a 20 litros por pé, ou até mais.


6) A calda sulfocálcica pode causar fitotoxidez?
Resposta: pode sim, mas se tomadas precauções, os danos serão mínimos ou nulos e as frutas poderão Ter o mercado como destino.


7) Que cuidados tomar para se evitar a fitotoxidez?
Resposta: como a calda sulfocálcica é um produto bastante alcalino, ao contrário do que se apregoava recentemente, as pulverizações noturnas devem ser evitadas e também aquelas realizadas em dias muito nublados ao ponto de dificultarem a evaporação do produto.
Quando a evaporação do produto é lenta, ela provoca uma reação com a casca dos frutos, ocorrendo então lesões em forma de pequenas queimaduras.
Horários de sol muito forte, com temperaturas superiores à 32° Celsius também devem ser evitados.

Observações:
- no verão, quando as temperaturas são muito elevadas, as dosagens de calda não devem ultrapassar 60 litros por bomba de 2.000 litros , pois poderá causar danos às brotações muito jovens;
- deve-se evitar a pulverização com doses acima de 40 litros de calda por 2.000 litros de água quando os frutos estiverem na fase de mudança de cor entre o verde e o amarelo, pois tem se notado a possível queda de frutos, variando a quantidade de região para região e de estado nutricional das plantas;
- os frutos que foram picados por percevejos também podem cair quando entram na fase de mudança de coloração ao receberem a aplicação da sulfocálcica;
- a mistura com os sais de microelementos também deve ser evitada, a não ser que se faça a aplicação experimental em uma pequena área na propriedade, para depois de se observar os resultados partir então para a pulverização em área total;
- o uso de microelementos quelatizados é permitido dentro das dosagens recomendadas pelos seus fabricantes, desde que realizados em horários frescos;
- também não é aconselhável a mistura de óleos vegetais ou minerais junto com a aplicação da calda pois é grande o risco de fitotoxidez.


8) Como controlar as cochonilhas?
Resposta: ao realizar as pulverizações para o controle de ácaros, as cochonilhas que atacam os ramos e as folhas já terão seu desenvolvimento inibido.
Em relação ao controle de parlatórias, deve-se pulverizar as pernadas e troncos das plantas com a dosagem de 100 a 120 litros de calda sulfocálcica por 2.000 litros de calda.


9) Que cuidados devemos ter com os equipamentos de aplicação?

Resposta: a calda sulfocálcica é bastante alcalina e corrosiva, e os equipamentos devem ser protegidos. Antes de iniciar os trabalhos de pulverização, deve-se aplicar óleo grosso ou de mamona sobre a lataria e partes expostas do trator e pulverizador.
Logo ao término do expediente de trabalho, sempre se deve limpar o tanque internamente, protegendo dessa forma a bomba e as tubulações, para isto, colocar pelo menos 500 litros de água limpa no interior do tanque com 400 ml. de ácido muriático (muito cuidado deve ser tomado na manipulação deste produto, pois se o mesmo cair na pele ou mucosa poderá causar sérias queimaduras), ou uma solução à base de 20% com vinagre ou suco de limão.


10) Como otimizar o trabalho da pulverização?

Resposta: para evitar problemas com entupimentos de bicos, deve-se lavar o filtro a cada 2 bombas. A melhor malha de filtro para este tipo de pulverização é aquela que tem de 20 a 24 mash (20 a 24 furinhos por polegada quadrada).
A calda ao ser colocada no tanque, o mesmo já deverá estar com o agitador funcionando para evitar decantação e entupimentos de filtros.
A pistoleira é considerada melhor que o pulverizador convencional, pois além de ser um equipamento relativamente barato, proporciona melhor molhamento e cobertura, mesmo trabalhando com tratores de baixa potência.


11) Como preparar a calda antes dela ir para o tanque?

Resposta: a calda pode vir acondicionada em tambores e bombonas. Como ela tende a decantar, deve-se retirar aproximadamente 20% do interior da embalagem, e em seguida agitar fortemente para reconstituir e homogeneizar a densidade da calda. Logo após a agitação, colocar de volta à embalagem os 20% do volume que foi retirado à embalagem original e agitar novamente. Caso no fundo da embalagem a calda fique muito grossa ainda (isso geralmente ocorre em tambores), usar o bom senso e utilizar uma dosagem menor dela por tanque para evitar uma possível fitotoxidez. Em propriedades grandes, com alto consumo de sulfocálcica, pode manter tanques com agitadores mecânicos.


12) Que cuidados o aplicador deve ter?
Resposta: o equipamento de proteção individual (EPI) deve ser sempre utilizado pelo aplicador, pois a calda pode ser corrosiva em contato direto com a pele e as mucosas.


13) A calda sulfocálcica pode ser armazenada na propriedade?

Resposta: pode ser armazenada em embalagens completamente fechadas, em locais sombreados por um período de até 6 meses.


14) Existem outras aplicações para a calda sulfocálcica?

Resposta: além do controle de pragas e doenças em citros, a calda sulfocálcica pode também ser utilizada nas culturas de café, caqui, pêssego, hortaliças e floríferas, em dosagens apropriadas aos problemas dessas culturas. Há estudos recentes nos Estados Unidos, indicando a utilização da calda sulfocálcica em tratamento pós-colheita em citros, na proporção de 3% em água, para o controle de doenças causadas por fungos, como o Penicillium .



Bibliografia consultada:
ABREU JÚNIOR, HÉLCIO - Práticas alternativas de controle de pragas e doenças na agricultura - Campinas, SP,EMOPI Editora Ltda, 1998, 111 p.

PENTEADO, SÍLVIO ROBERTO - Defensivos alternativos e naturais para uma agricultura saudável - Campinas, SP, 1999, 79 p.

PRATES, HELOISA SABINO - Caldas bordalesa, sulfocálcica e viçosa , produtos alternativos na citricultura - folheto informativo da CECOR/CATI - Campinas, junho de 1999.

Observação: é permitida a reprodução parcial deste trabalho desde de que citado o autor. Em caso de reprodução total do texto, somente com a autorização do autor.