Calda
Bordalesa
Esclarecimentos técnicos e utilização
Prática
Se hoje há controvérsias
em relação à utilização da calda
sulfocálcica, o mesmo não parece ocorrer com a calda bordalesa,
pois é um produto com reconhecimento de eficácia em quase
todas as áreas da Agricultura.
Embora os componentes da calda bordalesa tenham origem minerais que
sofreram processamento químico (cal virgem ou hidratada e sulfato
de cobre), ela é bem aceita pelas mais variadas correntes da
agricultura ecológica, visto que tais componentes fazem parte
dos processos metabólitos, sendo nutrientes essenciais para a
constituição das plantas.
Neste trabalho é dada ênfase à utilização
da calda bordalesa na cultura dos citros, porém quero deixar
claro que sua utilização como fungicida, agente bacteriostático,
ou simplesmente como fertilizante foliar se estende à diversas
culturas, como será demonstrado em quadro anexo.
Eng.
Agr. Carlos Alberto Cristan
e-mail: carloscristan@hotmail.com
Limeira, SP - janeiro de 2000
Perguntas,
respostas e dicas:
1)
O quê é a calda bordalesa?
Resposta:
- É uma calda preparada à base da mistura de cal virgem
(ou hidratada) e sulfato de cobre, que pode ser facilmente preparada
na própria propriedade, ou adquirida pronta.
É recomendável, porém, que ela seja preparada e
imediatamente utilizada para não ter sua eficiência reduzida.
As caldas adquiridas prontas devem ser utilizadas no máximo em
03 dias a partir de sua fabricação, pois tendem a decantar
rapidamente, e a sua eficiencia fungicida também se reduz.
2)
Qual a função da calda bordalesa nas plantas?
Resposta:
- Além da ação fungicida e bacteriostática,
ela irá fornecer Cálcio e Cobre que são importantes
de nutrição das plantas.
No caso dos citros, dependendo da adubação fornecida às
plantas, ela poderá tornar os frutos com uma casca mais consistentes
e mais resistentes à ação de fungos que atuam no
período de maturação dos frutos.
Alguns produtortes da região de Brotas, SP, têm o hábito
de aplicar via foliar 10 kg de cal virgem por bomba de 2.000 litros
em períodos que antecedem a florada.
Numa dessas propriedades, a do Sr. Laércio de Oliveira, notei
que as poncãs maduras que passaram por este tratamento, ficaram
com as cascas bastante firmes, e logo que vieram as chuvas fora de época
no mês de junho de 1999, em quase todas as propriedades vizinhas
que possuiam esta variedade e não realizaram o tratamento com
cal tiveram queda acentuada de produção devido ao ataque
de fungos do gênero Penicillium, como os bolores azul e
verde, mas os frutos tratados com cal permaneceram firmes e foram bem
valorizados pelo mercado.
3)
Qual o custo/benefício do tratamento de florada em relação
aos oxicloretos de cobre?
Resposta:
A principal vantagem tércnica da calda em relação
aos oxicloretos é que além de controlar bem as doenças
fúngicas como a verrugose, melanose, rubelose e medianamente
a pinta-preta, fornece também o Calcio como elemento nutricional,
fundamental para o bom pegamento de floradas.
Talvez a principal vantagem da calda bordalesa seja seu custo, cerca
de 50% menor que o tratamento convencional com oxicloreto de cobre.
Hoje, num tratamento convencional com oxicloretos de cobre com a dosagem
de 05 kg por bomba de 2.000 litros não sai por menos de U$ 16,00.
O mesmo tratamento com calda bordalesa irá custar em torno de
U$ 8,30 se preparada na propriedade, e cerca de U$ 9,00 se adquirida
pronta.
4)
Quais as doenças controladas pela calda bordalesa?
Resposta:
em tratamento de florada ela controla com eficiência a verrugose,
melanose, gomose (frutos que ficam pardos quando estão localizados
nas saias das plantas em solos muito infectados com o fungo Phythophthora),
e alguns autores citam também o controle da podridão floral
ou queda de frutos jovens, porém particularmente não notei
uma boa eficiência do produto em relação a esta
última doença citada.
A rubelose e a antracnose podem também ser bem controladas em
tratamentos de inverno.
Em um trabalho recente e polêmico, a tentativa tem se conseguido
o controle ou a convivência em níveis muitos de Cancro
Cítrico.
Diversos citricultores da região de Paranavaí, PR, já
estão convivendo com baixímos graus de incidência
de cancro cítrico há mais de 10 anos, com a aplicação
de oxicloreto de cobre em pulverizações a cada 45 ou 60
dias, ou seja, no momento em que ocorre alguma nova brotação
nos pomares.
Este trabalho sério de pesquisa do controle do cancro cítrico
tem sido realizado pelo Instituto Agronômico do Paraná,
e tem possibilitado aos produtores uma colheita normal de suas frutas
com o destino ao mercado interno local e à indústria,
num conjunto de outras medidas que são tomadas, como a utilização
de quebra-ventos e de rodolúvios nas propriedades.
Agora com os baixos preços recebidos pelas frutas, diversos produtores
estão substituindo o oxicloreto de cobre pela calda bordalesa.
Os resultados comparativos já poderam ser observados já
nesta safra.
5)
A calda bordalesa controla a pinta-preta?
Resposta:
Controla sim, mas de forma não muito eficaz. Para frutos com
destino à industria que não valoriza a beleza da casca
dos frutos, bons resultados tem sido obtidos com a realização
de 04 pulverizações a partir da fase de queda total das
pétalas , com intervalos aproximados de 28 dias .
* observação: - não misturar óleos de origem
mineral ou vegetal à calda bordalesa, pois poderá causar
fitotoxidez e queda de frutos jovens.
6)
Quais as dosagens de preparo da calda bordalesa?
Resposta:
Em citros pode-se usar uma receita clássica da mistura de 06
a 08 kg de sulfato de cobre para 06 a 08 kg de cal virgem.
Para as demais culturas verificar o quadro abaixo:
Culturas, indicações e dosagens de produtos para 100 litros
de água:
|
Cultura
|
Doenças
|
Sulfato
de Cobre (gr)
|
Cal
Virgem (gr) |
|
abobrinha
|
mildio
e manchas foliares
|
300
a 500
|
300
a 500
|
|
abacate
|
antracnose
|
500
a 1.000
|
500
a 1.00
|
|
alface
|
míldio
e podridão de esclerotínia
|
250
a 500
|
250
a 500
|
|
alho
|
mildio
e manchas foliares
|
500
a 1.000
|
500
a 1.000
|
|
batata
|
requeima
e pinta preta
|
500
a 1.000
|
500
a 1.000
|
|
café
|
ferrugem
e manchas foliares
|
1.000
a 1.500
|
1.000
a 1.500
|
|
caqui
|
antracnose,
cercosporiose e micosfaerela
|
300
a 500
|
1.500
a 2.500
|
|
couve
e repolho
|
míldio
e alternária em sementeira
|
250
a 500
|
250
a 500
|
|
cucurbitáceas
|
míldio
e antracnose
|
150
a 300
|
150
a 300
|
|
figo
|
ferrugem,
antracnose e podridões
|
400
a 800
|
400
a 800
|
|
goiaba
|
verrugose
e ferrugem
|
300
a 600
|
300
a 600
|
|
manga
|
antracnose
|
500
a 1.000
|
500
a 1.000
|
|
maracujá
|
bacteriose
e verrugose
|
200
a 400
|
200
a 400
|
|
morango
|
micosfaerela
e antracnose
|
250
a 500
|
250
a 500
|
|
noz
pecã
|
manchas
foliares
|
500
a 1.000
|
500
a 1.000
|
|
tomate
|
requeima,
pinta preta e septoriose
|
500
a 1.000
|
500
a 1.000
|
|
uvas
Itália e Niagara
|
míldio
e podridões
|
300
a 600
|
300
a 600
|
7)
Como preparar a calda bordalesa na propriedade?
Resposta:
Para dissolver os componentes da calda bordalesa deve-se utilizar recipientes
de plástico reforçado, fibra de vidro, cimento ou amianto.
Evitar recipientes de latão, ferro ou cobre, pois estes poderão
reagir com os elementos em alta concentração.
Coloque de 06 a 08 kg de cal no fundo do recipiente, acrescente um pouco
de água e mexa bem com o auxílio de um bastão,
de maneira a formar uma pasta.
Acrescente a seguir cerca de 40 a 50 litros de água, continuando
mexendo até a cal reagir completamente e se transformar em "água
de cal" ou "leite de cal".
Em outro recipiente dissolva o sulfato de cobre em dosagem igual à
utilizada de cal. De preferência utilize o sulfato de cobre micronizado,
que é de fácil dissolução em água.
Em seguida, com o agitador do tanque de pulverização já
ligado, acrescente primeiro a solução de sulfato de cobre,
e depois a "agua de cal" no tanque.
*
observação: - é muito importante que o agitador
do tanque seja ligado antes de colocar os componentes da calda bordalesa
no tanque para não ocorrer a decantação, que poderá
entupir filtros e bicos.
8)
A calda bordalesa pode causar fitotoxidez??
Resposta:
Pode sim, mas se for devidamente neutralizada e utilizada nas dosagens
recomendadas para cada cultura, não haverá problemas.
O ideal é que se faça a mediçãodo pH da
clada prontacom um peagâmetro digital, na falta deste pode-se
utilizar fitas de papel tornasol.
O pH ideal da calda bordalesa é que ele seja neutro (pH =7,0)
ou lewvemente alcalino (um pouco acima de pH 7,0).
No caso de se realizar a medição do pH da calda, e ela
apresentar um pH inferior a 7,0 , basta acrescentar um pouco mais de
cal virgem, e tornar a verificar a medida.
9)
Como evitar a fitotoxidez com a calda bordalesa?
Resposta:
A fitotoxidez causada pela calda bordalesa é caracterizad pela
presença de pequenas lesões arredondadas, escuras e aprofundadas
nos tecidos dos frutos novos e nos maduros também, além
de folhas e brotações jovens.
Este tipo de fitotoxidez pode ser evitada com a utilização
da calda devidamente neutralizada, e a aplicação realizada
em horários frescos.
Para
evitar a fitotoxidez é importante os seguintes cuidados:
-
não adicionar óleos minerais ou vegetais na calda;
- pode-se utilizar sais de microelementos misturados à calda,
desde que com as dosagens recomendadas para cada cultura, entretanto
deve´se optar por dosagens mais suaves de sais, pois a alta concentração
destes poderá causar decantação e possível
entupimento de filtros e bicos;
- a utilização de fertilizantes foliares líquidos
e quelatizados é preferencial para evitar a decantação
da calda;
- se o pomar tiver
sido pulverizado recentemente com a calda sulfocálcica ou acaricidas
organo-estânicos, é importante um intervalo de segurança
dê pelo menos um intervalo de segurança de cerca de 15
dias para pulverizar com a calda bordalesa;
- no caso do pomar ter sido pulverizado com calda bordalesa, e o citricultor
tiver que realizar uma pulverização com calda sulfocálcica,
ou acaricida organo estânico, é importante para se evitar
a fitotoxidez um intervalo de segurança de cerca de 30 dias.
Caso a necessidade seja urgente, pode-se realizar uma aplicação
experimental em uma pequena área do pomar, e observar os resultados
do local para se tomar a decisão de antecipar ou não a
aplicação, ou simplesmente realizar a pulverização
com produtos não estânicos e sem a presença de óleos
mineral ou vegetal no tanque.
10)
Que cuidados devemos ter com os equipamentos de aplicação?
Resposta:
Como o cobre tem uma ação corrosiva em certos metais,
é aconselhável tomar alguns cuidados antes e depois das
pulverizações.
Antes
de iniciar o trabalho de aplicação deve-se aplicar óleo
de motor ou de mamona sobre a lataria e partes expostas do trator e
do pulverizador.
Logo ao término do expediente de trabalho, deve-se linpar o tanque
internamente, protegendo dessa maneira a bomba e as tubulaçãoes.
Para isto, colocar pelo menos 1/4 da capacidade do tanque com água
limpa com 200 a 400 mililitros de ácido muriático (muito
cuidado ao manusear este ácido, pois ele é extremamente
perigoso em contato com a pele e mucosas), ou uma inofensiva solução
à base de 2% de vinagre ou suco de limão natural.
11)
Como otimizar o trabalho da pulverização?
Resposta:
para evitar problemas com o entupimento dos bicos, deve-se lavar o filtro
a cada bomba aplicada;
A
melhor malha de filtro para este tipo de pulverização
é aquela que tem de 20 a 24 mash (20 a 24 furinhos por polegada
quadrada).
A pistoleira é considerada para este trabalho melhor que os pulverizadores
convencionais, pois além de ser um equipamento relativamente
barato e exigir baixa potência de trabalho do motor do trator,
proporciona melhor molhamento e cobertura, principalmente quando se
trabalha com motores de baixa potência.
12)
Que cuidados o aplicador deve ter?
Resposta:
O aplicador deve usar sempre o EPI (equipamento de proteção
individual), pois a calda pode ser corrosiva em contato direto com a
pele e mucosas.
13)
A calda pronta pode ser armazenada na propriedade?
Resposta:
A calda bordalesa não deve ser armazenada pronta na propriedade,
pois além de decantar facilmente, notamos que sua eficiência
fungicida fica prejudicada quando fica por mais de 3 dias armazenada.
O ideal é preparar a calda e já aplicá-la.
14)
Como otimizar o efeito fungicida da calda bordalesa?
Resposta:
Como o efeito do controle se dará pelo contato da calda com os
tecidos da planta, é importante que a pulverização
tenha uma boa cobertura, formando uma fina camada sobre todas as partes
da planta. E a melhor pulverização é aquela que
apresenta ótima cobertura, com pouco ou nenhum escorrimento de
excesso de calda aplicado.
* observações: - evite pulverizar pela manhã se
ainda houver orvalho nas folhas e frutos, pois haverá diluição
da calda, possibilitando maior escorrimento e menor eficiência
fungicida;
- para melhor avaliação da cobertura, pode-se utilizar
papéis hidrosensíveis (papeis que mudam de coloração
em contato com a calda) colocados em pontos estratégicos nas
plantas, como atrás de pencas, ponteiros e na saia das plantas;
- se logo após a aplicação ocorrerem chuvas, é
importante que se faça a reaplicação, se houver
necessidade ;
quanto mais tempo seco após a pulverização, melhor
será a eficácia de controle;
15)
E a mistura com acaricidas e outros produtos?
Resposta:
Na calda bordalesa não deve misturada com acaricidas e inseticidas
com características de pH ácido, pois poderá ocorrer
uma reação química que possivelmente afete as ligações
químicas dos princípios ativos dos agroquímicos,
reduzindo ou mesmo cancelando sua eficiência de controle.
A mistura com acaricidas orgâno-estânicos (Torque, Partner,
Tanger, Sipcatin e Cihexatin) também é desaconselhável,
pois há o risco de causar fitotoxidez.
Se for conveniente alguma mistura de produtos, consulte antes seu engenheiro
agrônomo.
Bibliografia
consultada:
ABREU JÚNIOR, HÉLCIO - Práticas alternativas de controle de pragas e
doenças na agricultura - Campinas, SP,EMOPI Editora Ltda, 1998, 111
p.
PENTEADO, SÍLVIO ROBERTO - Defensivos alternativos e naturais para uma
agricultura saudável - Campinas, SP, 1999, 79 p.
PRATES, HELOISA SABINO - Caldas bordalesa, sulfocálcica e viçosa , produtos
alternativos na citricultura - folheto informativo da CECOR/CATI - Campinas,
junho de 1999.
PRIMAVESI,
ANA - Manejo ecológico de pragas e doenças: técnicas
alternativas para a produção agropecuária e defesa
do meio ambiente - Editora Nobel , São Paulo, 1988
Observação: é permitida a reprodução parcial deste trabalho desde
de que citado o autor. Em caso de reprodução total do texto, somente
com a autorização do autor.
